Por Fábio Campos
Pergunto, após o GP do Bahrein de Fórmula 1, aos meus raros e caros leitores: Em que adianta criar um grupo técnico para facilitar as ultrapassagens? De que vale alterar todo o projeto dos carros de uma temporada para outra? Por que efetuar uma mudança tão drástica nos monopostos para fazer com que as corridas sejam mais emocionantes?
Tudo isso não vale, ou tudo isso pode não valer, se as cabeças por trás das muretas dos pits continuarem as mesmas.
Pode não ter sido um GP de todo ruim. Teve seus bons momentos, e teve suas alterações de posições entre os primeiros colocados. Ah, quantas alterações! Que “maravilha de corrida”, dirão alguns. Então, daqui deste humilde cantinho, pergunto a estes alguns: quantas dessas “trocas de posições” foram efetuadas na pista? E quantas aconteceram nos boxes?
Exatamente quando a chuva, a tempestade de areia, a neve ou até o crepúsculo deram uma trégua, quando todos estes elementos abriram espaço para a Fórmula 1 passar, a Fórmula 1 não passou... Ou melhor, passou pelos boxes.
Ao fim da prova, foi impossível - pelo menos para mim - se animar, ou não se decepcionar, com a corrida no Bahrein. Depois de toda a pré-temporada, depois de todos os estudos que levaram a esse novo carro, depois dos 3 primeiros GPs... E numa pista que eu considero excelente para ultrapassagens... Eis que elas, as ultrapassagens, foram poucas, raras, escassas..
Alguns que lêem este texto podem achar que estou sendo exigente demais. Respeito e respeitarei, como sempre, a opinião de todos. Mas o crítico de Fórmula 1 que se preze, aquele que fez um curso inteiro de Jornalismo na esperança de, quem sabe um dia, trabalhar com Fórmula 1, ou mesmo aquele que tenta analisar a Fórmula 1 com um mínimo de amor ao automobilismo e à sua história, não pode se contentar com um GP do Bahrein como esse. A não ser que o jornalista seja, como alguns que conhecemos, um mero animador de espetáculo, que acompanha e cobre a Fórmula 1 com o único intuito e espírito de torcer para os pilotos brasileiros.
Há quem goste e se entusiasme com corridas como essa. Eu não faço parte desse grupo.
Vocês já repararam como é cada vez mais comum, no rádio das equipes que entra durante a transmissão, o engenheiro lembrar ao piloto que ele tem mais ou menos voltas de combustível no tanque do que o adversário que está à frente ou atrás?
E aquela estratégia da Brawn com Rubens Barrichello? Minha nossa, o que foi aquilo? Quer dizer que o piloto vem mais rápido do que 3 carros à sua frente, com muito mais ação e tirando até um segundo por volta do último deles, e o nobríssimo engenheiro o que faz? Repare na grande contribuição dada para a Fórmula 1, que brota da cabeça genial deste ser humano: demos a ele, ao invés da chance de passar os 3, uma parada nos pits a mais! Não é uma beleza?
Ah, mas é o nobre Ross Brawn, alguém pode clamar. Ah, se é o Ross Brawn, baixemos nossas cabeças. Senhores como Mr. Brawn podem errar à vontade, não é? Quem somos nós para criticá-lo... Se fosse o Domenicali, caía o mundo, e era pancada de todos os lados. Mas é o Ross Brawn, o quase “imperador” da Fórmula 1 moderna.
Mas há uma certa covardia nesse senhor chamado Ross Brawn. Ou não é covarde quem puxa o piloto para os boxes quando este alcança 3 adversários mais lentos à sua frente? Não será um pouco covarde quem cria, dentro de uma equipe como a Ferrari, a regra do “tragam as crianças para casa”? Ou não haveria uma certa covardia em quem pede para um piloto ceder a posição para outro, depois de liderar uma corrida e um final de semana inteiro de GP? Será coincidência que, exatamente na época em que a Ferrari de Brawn, Schumacher e Todt dominou a Fórmula 1, as estratégias de ganhar uma corrida nos boxes tenham ser tornado tão importantes?
Mas Ross Brawn, verdade seja dita, não está sozinho nesse barco. Não é só ele que pensa assim, não é só ele que age assim. E é por isso que eu fico triste e decepcionado após uma corrida como essa, cheia de “ultrapassagens” nos boxes. Os carros estão diferentes, mas os engenheiros e chefes de equipe - e até alguns pilotos - ainda são os mesmos.
Espero eu que o GP de Sakhir seja uma exceção. Torço de verdade para que tenha sido a “sujeira na pista” que tenha prejudicado o espetáculo, embora alguns lances de perícia e beleza tenham sido mostrados por alguns poucos, e sobre os quais falarei mais tarde.
Sim, teve coisa boa no Bahrein... Teve Jenson Button, teve as duas primeiras (eletrizantes) voltas, teve uma ultrapassagem maravilhosa de Fernando Alonso sobre Jarno Trulli, teve Kimi Raikkonen voltando a marcar pontos... Enfim, ainda há muito a se comentar.
Mas o principal está escrito aqui. A grande preocupação é que esse vício das estratégias na Fórmula 1 permaneça por muito tempo. Mas fica a esperança, embora Barcelona e Mônaco não encorajem muito, de mais ultrapassagens nas próximas corridas pois, no dia em que eu gostar de ver duelo de estratégias, vou assistir campeonato de xadrez...
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